Cirurgião plástico pernambucano recebe um político por semana e passa a atender também em Brasília. Boa aparência vale cada vez mais votos na acirrada corrida eleitoral
por Josué Nogueira // Diario
Característica dos humanos, a vaidade é cada vez mais evidenciada no meio político, habitat de “espécies” em que o ego costuma estar sempre em expansão. Entre deputados, senadores e ministros, a procura pela medicina destinada a driblar os efeitos do passar dos anos virou uma febre. Tanto que um dos principais nomes da cirurgia de transplante capilar no país, o médico pernambucano Fernando Basto, passou a atender também em Brasília. Lá, perto do poder, o cirurgião plástico tem agenda cheia. Dos seis pacientes que opera por semana, um exerce mandato eletivo. Mais de 50 políticos – entre a capital federal e o Recife – já passaram por suas mãos.
O mercado de Brasília inflou depois que Basto recebeu na sua clínica, em janeiro de 2008, o ex-ministro José Dirceu. Decidido a recuperar parte da cabeleira, Dirceu, aconselhado pelo ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, deixou São Paulo para receber no Recife o implante de 6.710 fios.
Aliás, Múcio, que há cerca de dois anos e meio passou pelas mãos de Basto, é uma espécie de garoto propaganda do cirurgião em Brasília. “Depois que operei Zé Múcio, a procura aumentou. Afinal, ele já era deputado com presença marcante em Brasília. Antes dele tinha operado políticos importantes, mas não houve aquela dimensão que conseguimos com ele e depois com Dirceu. Aí, então, a dimensão foi muito maior”, atesta Basto. “O mercado de Brasília ficou interessante por conta dessa repercussão”.
Ele lembra que Zé Múcio já era seu amigo pessoal antes de se tornar paciente. “Agora, ele faz questão de divulgar em Brasília e diz para os amigos: ‘rapaz, vai fazer a cirurgia em Pernambuco’. Para mim foi muito bom, e Pernambuco ganhou com isso”, salienta o médico. Múcio admite que assumiu o papel de “modelo” de Basto nos bastidores do poder. “Tenho sempre aconselhado deputados e senadores. Quem mais faz propaganda de Fernado Basto sou eu. Até porque gostei muito do resultado, além de ser amigo e admirador dele”, diz.
Autoconfiança – Quase 100% dos atendidos pelo cirurgião pernambucano são homens, o que confirma que o público das cirurgias estéticas independe cada vez mais do sexo – ele também realiza outros procedimentos, como reparos em pálpebras e papada. No entanto, é ainda nas mulheres que a “recauchutagem” estética costuma provocar maior impacto. Que o diga a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Virtual candidata à sucessão do presidente Lula, Dilma ganhou as manchetes de todo o país em janeiro passado ao cortar o cabelo, dispensar os óculos e surgir com o rosto rejuvenescido por plásticas. A mudança no visual da ministra foi interpretada na época como preparação para a campanha presidencial de 2010. Tida como uma mulher sisuda e pouco simpática, as alterações teriam sido pensadas para suavizar sua imagem. Repaginar o visual não garante voto, mas, na avaliação de Basto, costuma tornar o paciente mais seguro de si. Além da vaidade, talvez isso explique a preocupação dos políticos com a estética. Afinal, eleitor costuma não perdoar candidatos inseguros.
Fonte: Diario de Pernambuco
“Dilma acertou ao fazer a plástica”
Em constante busca de votos para obtenção ou renovação de mandatos, os políticos, na maioria das vezes, procuram repaginar a aparência por decisão pessoal. Há casos, porém, em que as mudanças são recomendadas pelos profissionais do setor de marketing de uma eventual campanha. Nos anos 80, a troca de óculos do hoje deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) foi orientada por assessores. Em busca do mandato de governador, ele deixou de lado a armação preta e quadrada e adotou um modelo mais moderno e leve. Na época, foi orientado, também, a não levantar o pescoço, mantendo o nariz numa posição “menos arrogante” enquanto falava.
As lembranças são do marqueteiro baiano Raimundo Luedy e servem para exemplificar que a imagem do político passa por lapidações que podem contribuir para facilitar o contato com o eleitor. Com inúmeras campanhas no currículo – para candidatos a governador e presidente das mais diversas colorações políticas – Luedy observa, porém, que o marketing, de modo geral, não costuma sugerir mudanças drásticas. Principalmente se o político já for conhecido e tiver “cara e jeito” identificados pelo eleitor. “Aí não se pode promover alterações radicais. A não ser quando o próprio candidato avalia que chegou a hora de tirar a expressão de cansaço, as olheiras”, pondera.
Para ele, a ministra Dilma Rousseff acertou ao fazer a plástica agora. “No ano que vem, ninguém mais tocará no assunto. E, se cobrarem, pode-se lembrar que Lula, que sempre se mostrou barbudo, teve de aparar a barba para suavizar a aparência”.
Na medicina, a procura pelo rejuvenescimento costuma ser tratada como consequência natural de quem quer elevar a autoestima. O cirurgião plástico pernambucano Pedro Pitta lembra que, “político ou não, ninguém quer envelhecer”. “Até mesmo o machismo nordestino foi abolido quando se fala de plástica”, diz o médico, integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Com 30 anos de atuação, Pitta já operou, como ele resume, “diversos políticos do estado”.
Segundo ele, a procura por uma imagem jovial explica o aumento do interesse pelas cirurgias estéticas entre deputados, prefeitos e senadores. “Há preocupação com a aparência, sim. Alguns fazem plástica de nariz, outros de pálpebras e face. Essas são as cirurgias mais comuns quando se trata da aparência. Mas outros fazem barriga, lipoaspiração, orelhas de abano”.
Fonte: Diario de Pernambuco